O mercado de
agronegócios está prestes a ganhar um novo papel
de negociação. Trata-se do Certificado de Crédito
Agrícola (CRA), em estudo pela Comissão de Valores
Mobiliários (CVM). A nova ferramenta vem num momento
em que os preços de commodities estão em alta
e a safra bate recordes sucessivos.
Entre as principais vantagens do CRA está a alíquota
zero de Imposto sobre Operações Financeiras
(IOF) e a isenção de Imposto de Renda sobre
a rentabilidade para os aplicadores pessoas físicas,
além do fato de ser um instrumento mais barato em termos
de financiamento que o crédito obtido junto aos bancos.
Com a criação do CRA, analistas de mercado
atestam que o potencial de arrecadação de recursos
a serem girados com os Certificados de Direitos Creditórios
do Agronegócio (CDCA) e da Letra de Crédito
do Agronegócio (LCA), chegue aos R$ 15 bilhões.
O novo papel vem num momento em que o volume dos títulos
mobiliários ligados ao agronegócio vem aumentando
ano a ano, de acordo com os registros da Cetip. Em 2005, o
estoque de Certificados de Direitos Creditórios do
Agronegócio (CDCA) era de R$ 29,137 milhões.
No ano seguinte, esse volume aumentou 1.346% e saltou para
R$ 420,564 milhões. Em 2007, cresceu 403,85%, indo
para R$ 2,119 bilhões, e neste ano já acumula
alta de 46,11% e R$ 3,096 bilhões.
Já a Letra de Crédito do Agronegócio
(LCA), apresenta performance semelhante: passou de R$ 4,086
milhões em 2005 para R$ 19,240 milhões em 2006,
um crescimento de 370,88%. Já em 2007, esse volume
saltou para R$ 2,137 bilhões, um aumento de 11.007,07%,
e desde então cresceu 67,72% alcançando R$ 3,584
bilhões. Na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F),
que igualmente negocia esses títulos, os números
também são expressivos: a LCA movimentou R$
775,3 milhões, enquanto o CDCA teve um giro de carteira
de R$ 208,429 milhões até a última sexta-feira.
Outros dois títulos lançados não têm
valores registrados: o Certificado de Depósito Agropecuário
e Warrant Agropecuário (CDA-WA), pois representam a
quantidade física do produto (por exemplo, uma saca
de café) e o Certificado de Recebíveis de Agronegócio
(CRA), o único que ainda não saiu do papel.
Enquanto os CDA-WA são representativos da posse de
mercadoria, os demais - LCA, CRA e CDCA - são lastreados
em recebíveis, ou seja, títulos de dívidas
que podem ser produtos ou insumos agropecuários ou
de máquinas e implementos. "Por ser um mercado
recente, ainda é pouco conhecido pelos investidores,
mas tem grande potencial de crescimento", diz Sávio
Pereira, coordenador geral da secretaria de política
agrícola do Ministério da Agricultura.
"Esses títulos fazem uma ponte entre o mercado
agrícola e o de capitais. O objetivo era criar um complemento
ao Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR) com captações
através de investimentos e não de empréstimos
e, portanto, com taxas menores", diz Ivan Wedekin, diretor
de Produtos do Agronegócio e Energia da BM&F. Hoje,
um terço do capital de giro dos produtores provém
do SNCR, outro terço vem de recursos próprios
e o restante de operações com agroindústrias.
"No SNCR, a taxa de juros é de 8,75% ao ano enquanto
no mercado pode chegar a 20% ao ano, dependendo da operação.
Já esses títulos oferecem taxas de juros inferiores
e acredito que representarão 20% do montante do SNCR
até o fim do ano", diz Wedekin.
A ausência de certas obrigatoriedades que encarecem
as operações contribui para a menor cobrança
de juros como a alíquota zero de IOF e a isenção
de Imposto de Renda sobre a rentabilidade para investidores
pessoas físicas.
"Os produtores rurais ganham com a menor taxa de juros
enquanto o investidor tem vantagens tributárias",
diz Ademiro Vian, assessor sênior da Federação
Brasileira de Bancos (Febraban). |